Sobre desperdício e mudança de posturas de vida

Em nossas andanças pelo CEASA, estamos sempre pesquisando e conversando com produtores e distribuidores para conhecer suas histórias e tentar compreender o caos da logística de abastecimento da cidade de São Paulo e região. Invariavelmente nos deparamos com cenas como esta da foto que acompanha este post: frutas e verduras em perfeito estado e adequadas para o consumo, que são descartadas, ainda que uma enorme parcela da população do nosso país (e no mundo) que viva com uma dieta de carboidratos e nutrientes muito abaixo do mínimo necessário. Essa cena se repete nos mais diferentes locais de produção, transporte e comercio de alimentos.

Só no Brasil, segundo a EMBRAPA, são desperdiçados cerca de 40 mil toneladas de alimentos (!) por dia, o que seria suficiente para alimentar 19 milhões de pessoas por dia. No caso do CEASA, este descarte ocorre principalmente por dois motivos. Primeiro por que muitas vezes, dependendo do produto, simplesmente não compensa armazenar ou levar de volta o que foi trazido de longe para ser comercializado. É impossível acondicionar as mercadorias nas dependências do CEASA para uma venda futura, e levar de volta significa custos de transporte, isso se o produto durar até a próxima oportunidade de venda.

O segundo motivo tem mais a ver com nós, consumidores. Não aceitamos consumir determinados alimentos, ou partes deles, simplesmente por falta de habito, de informação, ou de incentivo. Quem quer comer a folha da couve flor, do brócolis, embora elas sejam quase idênticas à da couve? Utilizar as folhas da cenoura como tempero? Isso para não ir mais longe, como por exemplo utilizar a casca da banana para os diversos fins, como por exemplo um delicioso brigadeiro. Nossa cultura de alimentação é muito arraigada e introduzir novos valores e ideias de consumo parece ser uma tarefa hercúlea.

Existem diversos grupos de pessoas que estão querendo mudar um pouco esta realidade. A ONG Banco de Alimentos, por exemplo, organiza a distribuição de excedentes da indústria alimentícia. O Instituto AKATU é outro que é interessante dar uma olhada, justamente porque coloca em questão as práticas de consumo.

Muita gente está pesquisando e resgatando o valor de plantas que eram utilizadas como alimento antigamente e foram esquecidas, diante da avalanche de informação que vem da grande indústria, da massificação da informação e da produção em grande escala que nos ofuscam, ditando nossas preferências e gostos.

As plantas alimentícias não convencionais (PANCs) estão ganhando mais destaque ultimamente, e nós nos divertimos muito nestas pesquisas. Fizemos um sal temperado com as folhas de cenoura que pedimos para os vendedores no CEASA (e não tem nem preço, não se vende mais), com talos de salsão e outros temperos (mais ou menos) convencionais. Quem provou adorou!

Para saber mais, nossa mestra das PANCs é a Neide Rigo, que inclusive organiza passeios guiados pelo bairro da Lapa, à caça dos vegetais.

Tem também o Blog do Guilherme, todo dedicado a isto.

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