Precisamos falar sobre o nosso intestino. Estamos acostumados a exaltar o nosso complexo, racional e poderoso cérebro, contrapondo-o ao nosso apaixonado e volúvel coração. A relação entre os dois é até comicamente explorada pelo ilustrador Nick Seluk, que desenvolve tiras de quadrinhos hilárias em que as duas personagens estão sempre em desacordo, ilustrando os apuros que o conflito nos traz. Deixamos de lado os outros órgãos, principalmente aqueles que nos causam certo desconforto e até constrangimento no dia a dia. Seu intestino pode te deixar em situações embaraçosas no dia-a-dia, e não tem o glamour de um cérebro ou coração. Porém, ele é tão supreendentemente complexo, elegante e sofisticado como seus irmãos famosos.

A área da medicina que estuda nosso trato intestinal se chama gastrenterologia. Segundo a autora do livro, é uma área que foi negligenciada durante muito tempo na história da medicina moderna ocidental. Apenas recentemente é que estamos começando a compreender sua importância em nossa saúde e todas particularidades e sutilezas deste órgão tão importante em nossas vidas, aonde reside dois terços de nosso sistema imunológico. Ele produz mais de 20 hormônios essenciais para nós, além de digerir e transformar batata frita, maçã, bifes e todo tipo de alimento em moléculas pequenas o suficiente para atravessarem suas paredes e serem transformadas em energia e blocos de construção por nossas células.

A primeira parte do livro traz um relato técnico e divertido sobre coisas que evitamos falar no dia-a-dia, apesar de serem atividades essenciais para o nosso bem estar e qualidade de vida. O que acontece quando fazemos cocô? Qual a melhor posição para fazê-lo? Estamos sentando corretamente na privada? Giulia descreve de forma leve (e até demasiadamente infantilizadora, no momento em que antropomorfiza as fezes, como que para tornar mais palatável o assunto) o caminho do alimento desde que ele adentra nossa boca e seus elementos mais importantes (dentes, língua, glândulas, amídalas, etc) e vai adentrando em nosso corpo numa aventura de autoconhecimento, passando pelo esôfago, saco gástrico, intestino delgado, grosso, até a saída, descrevendo inclusive as diferentes possíveis fisiologias de nossas fezes, segundo a classificação de 1997.

Nos explica, inclusive com ilustrações, a importância de uma alimentação saudável (você sabia, por exemplo, que a gordura ingerida, após digerida em partes menores, passa diretamente do intestino delgado para o coração -sem ser filtrada por nosso fígado-, através dos nossos vasos linfáticos? Confesso que esta informação me deixou mais consciente – e crítico – das besteiras que costumo ingerir…

Terminada a explanação fisiológica, o livro passa por uma parte extremamente interessante sobre o que está sendo descoberto agora na ciência. Ela vai falar da relação de doenças como obesidade, alergias, intolerâncias aos alimentos, doenças auto-imunes, depressão e outras patologias psicológicas, Alzheimer, entre diversas outras, tem origem ou relação direta com um desequilíbrio intestinal. Grande parte desta doenças foram, segundo a autora, tratadas de forma errada, no momento em que estava-se procurando atacar os sintomas, sem compreender totalmente a causa. A ciência deu um passo muito importante neste sentido, pois, mesmo ainda não tendo elucidado todos detalhes dos mecanismos envolvidos nesses distúrbios, passa agora a desvendar a origem deles. Quando a autora começa a nos contar sobre o sistema nervoso do intestino, entendemos o porquê do intestino ser considerado um segundo cérebro e principalmente como o ele influencia o cérebro. É chegada a hora de fazermos as pazes e darmos mais valor a este órgão que costumamos maltratar, sem ter a consciência de que ele faz parte de nossa consciência.

Para mim, o livro fica realmente intrigante a partir do terceiro capítulo, aonde entram os microrganismos e a visão do ser humano como um ecossistema. Neste sentido, o livro está muito relacionado com o 10% humano da Alanna Collen, sobre o qual já escrevi neste espaço. Ela vai falar das bactérias boas e más que habitam nosso corpo, sobre as que apenas fedem e cheiram (a imensa maioria, presentes porém apáticas) e as que são boas e ruins, como a H. pylori. Ela termina o livro com uma discussão muito franca e equilibrada sobre o uso de antibióticos, probióticos e prébioticos.

Pessoalmente, trabalhando diretamente com este assunto, seja dando aulas ou cozinhando na Companhia dos Fermentados, achei inicialmente que o livro fosse apenas mais um destes best sellers que simplificam e infantilizam os assuntos, nunca indo a fundo na questão. Estava errado. A obra entrou para a lista as que mudram e moldaram minha forma de encarar o corpo e o mundo, procurando trilhar este árduo caminho do meio e encontrar o equilíbrio tênue entre os nossos afoitos desejos e a racionalidade que muitas vezes restringe nossas ações. Recomendo!

 

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