Quanto mais a ciência avança, mais constatamos um fato pra lá de desconcertante: não somos tão humanos quanto gostamos de bradar aos quatro ventos. Hoje em dia a medicina, a biologia, a nutrição e outras áreas afins estão mudando radicalmente o modo de pensar e trabalhar, reconhecendo o corpo humano como um complexo e delicado ecossistema, do qual nossas células são apenas uma pequena minoria em número. Em outras palavras, se agora pousasse uma nave espacial e dela saísse um extraterrestre, ele muito provavelmente não diria “humano, leve-me ao seu líder!”, mas sim “saco de bactérias e leveduras ambulante, o que você anda fazendo com seu corpo?”.

O livro “10% humano” narra a saga da bióloga Alanna Collen em compreender o que a torna “humana”, levando em consideração estas últimas descobertas da ciência. Tudo começa quando ela contrai uma doença grave transmitida por carrapatos enquanto estudava morcegos na Malásia. Ela passa então os próximos 6 meses tomando diversos tipos de antibióticos para se curar, o que ocorre com sucesso. Porém, a ingestão de todos estes fármacos acaba criando diversos efeitos colaterais graves, que ocorreram, segundo a autora, devido à enorme mortalidade dos microrganismos que compunham a sua flora intestinal (o que preferimos chamar de microbiota hoje em dia, pois não há flores nem outros vegetais se multiplicando em nosso trato intestinal).

O livro começa de forma um tanto desconcertante, pois discute justamente o que nos caracteriza como humanos – e nos diferencia dos outros animais. A primeira coisa que sempre nos vem à cabeça é a nossa inteligência; nossa capacidade de criar e manejar ferramentas cada vez mais complexas e sofisticadas. A tarefa de definir inteligência é extremamente complicada e ingrata, pois, se formos defini-la como sendo simplesmente o ato de fazer boas escolhas, estamos danados, já que sabemos que até baratas fazem melhores escolhas que a humanidade. Evitar a luz, morar num lugar quentinho e úmido são escolhas que possibilitam que estes insetos existam por muito mais tempo que o homo sapiens, cujas escolhas feitas nas últimas décadas não são, como dizem os biólogos, uma Estratégia Evolutivamente Estável (EEE). Queimar combustíveis fósseis, construir enormes usinas (e bombas, porque não?) nucleares, despejar todo tipo de detritos no rio e no mar, isto sem falar nas nossas opções de alimentação oferecidas pela grande indústria alimentícia cada vez menos saudáveis, são todos problemas que devemos enfrentar o quanto antes, pois eles estão comprometendo a nossa estadia e permanência no planeta terra.

Existem outras maneiras de tentar nos diferençar dos outros animais como seres inteligentes. Uma delas é o que chamamos de propriocepção (a capacidade de saber que existimos como indivíduo). Porém, diversos estudos demonstram que várias espécies tem este dom (o jeito mais divertido de perceber isto é colocar um espelho na frente dos animais, existem diversos vídeos no youtube que mostram que macacos, golfinhos e até aves tem consciência de que estão pisando, nadando e voando no planeta terra). Outro conceito é o de empatia: saber que o outro existe, se colocar no lugar dele (para o bem ou para o mal). Mais uma vez, diversos animais o fazem, muitos deles até melhor do que este que vos escreve.

Poderíamos então nos fiar em nosso DNA, e é ai que as coisas começam a ficar interessantes. Nosso genoma – o conjunto de letrinhas do pequeno alfabeto A, T, C, G que combinadas de formas diferentes e bem especiais culmina na grande enciclopédia que descreve o que é SER humano – traz muitas informações importantes sobre todos os blocos de construção que nos formam (as chamadas proteínas). Porém, ele sozinho não dá conta de botar uma pessoa de pé, e é exatamente isto que a medicina e a biologia estão compreendendo nos últimos anos e nós estamos tento o prazer de assistir a esta revolução na forma de pensar e encarar a (nossa) vida. Não é sempre que assistimos a uma mudança tão grande na forma de pensar que envolva diversas áreas do conhecimento, e neste sentido, o livro de Alana é magistral em sua narrativa.

Por exemplo, nós temos um pulmão cuja função é captar o ar, filtrá-lo, fazer com que apenas as moléculas de oxigênio passem para o lado de dentro do nosso corpo e sejam entregues para as hemácias, nossas células vermelhas que por sua vez irão depositar cada 02 em cada uma das nossas 60 trilhões de células, onde elas irão finalmente encontrar as mitocôndrias, nossas grandes usinas de energia que nos mantém de pé falando, escrevendo, amando e queimando combustíveis fósseis. Até ai tudo bem, se não fosse pelo fato de que as mitocôndrias não estão previstas no nosso genoma. Elas não estão no nosso DNA! São seres invasores, de certa forma: quando o espermatozoide que veio do seu pai se juntou ao óvulo da sua mãe, não havia ali a informação da mitocôndria. Elas invadem nossas primeiras células através do útero das nossas mães. Ela segue a linhagem das mulheres: sua mitocôndria veio da sua mãe, da sua vó materna e da mãe dela, e assim por diante. Este fato é simplesmente maravilhoso e de tirar o fôlego, pois, além de empoderar as mulheres (sem elas não temos nem mitocôndrias para produzir energia!), nos indica que nós não somos tão “humanos” como talvez quiséssemos. Além disso, aponta para uma teoria evolutiva que é chamada de simbiogênese, ou seja, a evolução em cooperação, em conjunto, de dois ou mais organismos culminando num superorganismo. Nós somos um superorganismo!

Hoje a ciência sabe que não apenas temos bactérias e leveduras em nosso trato intestinal como também elas estão presentes em nossos olhos (flora ocular), ouvidos (flora auricular), em nossa pele, órgãos genitais, entre outros locais e elas são imprescindíveis para o bom funcionamento do nosso corpo: ou seja, para o nosso metabolismo. Elas co-evoluíram conosco, fazem parte de nós, nos tornam humanos. Nós somos a casa delas e por este motivo interessa para elas que estejamos sempre saudáveis. Elas irão nos defender bravamente de invasores (microrganismos nocivos à nossa saúde, chamados de patógenos) e sintetizar (produzir) diversas vitaminas e enzimas que nos auxiliam na digestão e absorção dos nutrientes presentes nos alimentos.

Por exemplo, na nutrição, estamos compreendendo que nós não somos o que nós comemos, mas sim o que os microrganismos que temos em nossa barriga comem. Nesta nova abordagem, não faz muito sentido pensar em uma “dieta de 2400Kcal diárias”. Se eu comer exatamente a mesma coisa que você, nós iremos aproveitar de forma diferente o que ingerimos, pois temos microbiotas (microrganismos que compõe nossa flora intestinal) diferentes. Além disso, ainda neste sentido, estamos fazendo muita coisa errada quando se trata de alimentação. Nossa comida hoje em dia (principalmente as industrializadas que encontramos nos supermercados) lembra muito pouco a comida de 50, 100 anos atrás. Nós ingeríamos muito mais fibras alimentares e menos açúcares de rápida absorção (este que está nos refrigerantes, sucos de caixinha e te deixa feliz por 30 minutos, mas vem junto com um choque glicêmico que espreme seu pâncreas para liberar insulina suficiente para digeri-lo). Temos que ter em mente que o nosso corpo (e também nossa mente!) não consegue acompanhar as mudanças tecnológicas e, feliz ou infelizmente, ainda somos praticamente os mesmos animais que deixaram de ser caçadores-coletores há apenas dez mil anos (pouco tempo na escala temporal evolutiva de um mamífero). O que temos que assegurar é que estamos alimentando também a nossa flora intestinal, principalmente com fibras que irão alimentar a nossa flora: o que chamamos de prébioticos. Ultimamente, encontramos prébioticos até em farmácias, também chamados de “ração humana”. Esta é mais uma tentativa de transformar comida em remédio. É uma pena que muita gente se “alimente” desta maneira. Prébioticos, a comida dos nossos bichinhos, é tão simplesmente banana, espinafre, taioba, cebola, alho, abacate, farelo de aveia e qualquer outro vegetal com suas fibras e carboidratos “não digeríveis” (por nós). Outra coisa que virou moda e é vendida também em frascos nas farmácias são os probióticos – microrganismos compatíveis com a nossa flora intestinal. É uma pena vê-los nas farmácias e não nos supermercados ou em nossas casas.

Mas a lista não para aí. Com esta recente compreensão da importância dos microrganismos no funcionamento do nosso corpo, diversos distúrbios estão começando a ser analisados sob esta luz. Não apenas obesidade e diabetes, mas também várias patologias mentais estão sendo estudadas por psiquiatras, até diversos tipos de autismo! Outro exemplo: doenças causadas por superbactérias, resistentes aos mais poderosos antibióticos, conseguem ser vencidas quando colocadas para competir com outras bactérias (benéficas ou inofensivas para nós). Alana também discorre sobre a importância do parto natural, o papel do nosso apêndice, abuso do uso de antibióticos –inclusive de forma preventiva nos animais- e suas consequências desastrosas, a moda das dietas escabrosas, sabonetes bactericidas (já proibidos em diversos países), últimas descobertas na gastroentorologia, entre diversos outros assuntos que todos devemos estar a par, pois tratam de nós mesmos.

O livro é primoroso na descrição deste novo jeito de pensar e trabalhar que surge nas ciências da saúde humana: ao invés de combater vida com anti-vida (antibióticos) combater vida com vida (probióticos), buscando resgatar equilíbrio dinâmico, a característica mais marcante de um ecossistema saudável. Isto é importante e urgente pois as bactérias já sobreviveram a catástrofes muito mais dramáticas que a humanidade, e a capacidade delas de mudar e se adaptar a ambientes hostis por seleção natural é infinitamente maior e mais rápida do que a nossa capacidade de produzir antibióticos.

Em outras palavras, isto significa que se continuarmos levando deste jeito (abusando destas drogas) vamos chegar em breve a um ponto em que não teremos mais antibióticos que funcionem para nos curar, ou seja, iremos voltar ao tempo em que não havia antibióticos!

Por fim, todas estas descobertas são também muito divertidas. Primeiro, não deveríamos nunca nos sentir sozinhos, já que temos trilhões de colegas habitando nosso corpo. Não devemos nos sentir tampouco entediados, pois a cada segundo estão ocorrendo diversos processos microbianos emocionantes por todos nossos tecidos, como numa verdadeira rave bacteriana. Para estes microrganismos, o nosso corpo é um parque de diversões e uma casa. “Eles” estão por aqui para cuidar bem de “nós”, e “nós” devemos também cuidar “deles” com muito carinho e atenção, afinal, não existe “nós” sem “eles”. Neste sentido, livro é leitura obrigatória para todo mundo que quer fazer as pazes com o próprio corpo e com o meio ambiente. Ele nos esclarece que não estamos sós. Cada indivíduo é um superorganismo, que precisa ser tratado como tal.

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