Visita ao moinho Paullinia – por Mariana Galhardo da Leveda Pães
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Algumas semanas atrás fomos conhecer o moinho da farinha de trigo que usamos em Marechal Cândido Rondon, oeste do Paraná. Agendamos uma visita para conhecer o equipamento que moi a farinha, pois ela é muito diferente da maioria das farinhas que conhecemos, mas já desconfiávamos que a qualidade excepcional também dependia de outros fatores. Fomos com mais duas padeiras paranaenses, chegando à Paullinia fomos recebidas pelo dono do moinho seu Otmar e sua família que trabalha com ele. O moinho fica atrás da casa deles, em um sítio que eles compraram na década de 90 perto do Rio Arroio Fundo.

Trigo orgânico vindo de uma plantação familiar próxima ao moinho

Seu Otmar nos contou sua história de vida, que trabalhava com agricultura convencional até ser seriamente intoxicado duas vezes pelo uso de agrotóxicos e decidir trabalhar apenas com orgânicos. O moinho todo foi construído ou restaurado por ele, desde as escadas e estruturas grandes até o moinho propriamente dito, uma verdadeira engenhoca que alia tecnologia com criatividade. Nessas máquinas artesanais eles processam apenas grãos orgânicos – sem agrotóxicos e sem transgênicos – e nos contaram que depois que conseguiram a certificação em 2004 a venda aumentou consideravelmente.

Outros produtos da Paullinia como açúcar mascavo, arroz, soja

O nome do moinho vem do guaraná cujo nome científico é Paullinia cupana e lá eles processam por volta de 120 toneladas de grãos por ano. Entre esses grãos estão arroz, centeio, milho e trigo, todos orgânicos e da região, a maioria de pequenas propriedades familiares e alguns de áreas indígenas. Seu Otmar visita todas pessoalmente para conhecer as plantações e ver se os agricultores são sérios em relação aos cuidados com orgânicos.

Seu Otmar nos mostra o milho vindo de uma área indígena

Quando os grãos chegam na Paullinia, passam por uma máquina de limpeza que tira pequenas impurezas e a terra de diatomácea – inseticida natural feito de algas – depois são secos com o calor de um forno a lenha até ficarem com 13% de umidade e estocados em barris de alumínio fechados sem entrada de ar. Nesses barris, os grãos podem ser estocados por até 2 anos sem perigo de eclodirem ovos de insetos.

Seu Otmar ao lado dos barris de alumínio

Quando há a demanda da farinha, o grão é moído em seu moinho e descascador próprios, para não haver contaminação cruzada. Parte do arroz é polido por uma máquina e parte vendida como integral, as cascas servem para alimentar as 150 galinhas que vivem ali perto. Já o trigo – nosso principal interesse – passa por dois processos diferentes.

Máquina que descasca o arroz orgânico

A farinha integral é moída na pedra, passa por uma peneira grossa e depois já pode ser embalada, na Paullinia tudo é embalado um a um manualmente. Já a farinha branca passa por 4 processos diferentes de moagem onde ela sobe e desce em canos e espirais até finalmente ser peneirada por um grande conjunto de peneiras, resultando em 60% do grão de trigo. O que sobra é vendido como farelo ou como ração orgânica para animais.

moinho de farinha integral

Então descobrimos porque essa farinha é a melhor que já usamos! Além de todo cuidado de seleção do grão de trigo realizado pela Gebana – que trataremos em outro texto – o processo de moagem é extremamente artesanal e cuidadoso, extraindo apenas a melhor parte das proteínas do coração do grão. Nada é adicionado à farinha, nem melhoradores, nem alvejantes que estão em quase todas farinhas convencionais do mercado. O resultado é uma farinha pura, orgânica, de cor bege e que apresenta variação natural a cada safra. É essa farinha que utilizamos com orgulho: de excelente qualidade, feita com trigo orgânico plantado por pequenos agricultores brasileiros e moída com todo cuidado do mundo pelo pessoal da Paullinia.

 Seu Otmar mostra um ramo de centeio da região

Depois dessa visita incrível, nos sentamos para comer uma ótima galinhada orgânica/caipira preparada pela esposa do seu Otmar, dona Lúcia. Tivemos uma visita surpreendente em que conhecemos de perto o processo de moagem da farinha, mas também as pessoas que estão por trás do saco de farinha, seus sonhos e batalhas para fazerem esse trabalho lindo que fazem hoje.

Padeiras com o pessoal da Paullinia

Esse texto não é patrocinado, nós apenas admiramos muito o trabalho envolvido na produção da principal matéria prima dos nossos pães e queremos espalhar a informação por um mundo com mais saúde para todos!

Em São Paulo por enquanto a farinha Paullinia pode ser encontrada na feira de orgânicos do Parque da Água Branca (toda terça, sábado e domingo das 7h as 12h no Parque) e no Café Dazô (de segunda a sábado das 14h as 20h na rua Apinajés, 434).

Mariana Galhardo – Leveda Pães Artesanais (@leveda.pao)

 

7 Comments

  1. Obrigado…Excelente artigo.

  2. Arrasou na pesquisa e visita Mariana! Eu cheguei a trocar umas ideias com vc sobre a farinha no face uma vez e cheguei a falar com eles por telefone, muito legal ver as fotos e as carinhas das pessoas que cuidam de todo esse processo. Realmente não tem porque comprar farinha importada, tendo essa opção ecológica e social aqui com a gente.
    Valeu super essa pesquisa!

    • Fernando Goldenstein Carvalhaes 01/08/2017 Responder

      Obrigado pelo retorno Roberta! É muito incentivador para continuar sempre as nossas pesquisas 🙂

  3. […] longa e natural, ela é perfeita, além de ser brasileira e orgânica. Fui conhecer as plantações e o moinho dela e fiquei apaixonada, não pretendo usar outra […]

    • Fernando Goldenstein Carvalhaes 23/03/2018 Responder

      🙂

  4. Yoshinori Tateishi (apelido Alberto Luis - "o Tigre" gato do campo horoscopo chines) 23/03/2018 Responder

    Sou brasileiro, solteiro de Quatá-SP de 23-11-1950 filho de japones que apos 1966 até hoje moro na Penha-SP . De 1950 até 1960 fiquei com a famílhia em Quatá , de 1960 a 1966 e Pacaembú -SP . Meu pai, irmão e a mãe na chácara de Quatá plantava arroz, feijão, milho e trigo sarraceno, tudo só natural e fazia farinha no pilão e no forno a lenha a minha mãe fazia o pão de trigo integral de sarraceno (Soba) com, gengibre , gergelim, mandioca, milho, arroz em Fermentação natural. Em japones (Dango) que levava como sanduice com recheio de conservas de legumes no Grupo Escolar Estadual ( Antigo Ensino Fundamental do 1º ao 4ª ano ) da cidade apos a caminhada de 2 horas á pé com a distancia de 8 quilometro ( nos anos de 1957 a 1965 n o interior do estado de São Paulo as estradas eram sem pavimento e passava carro de boi , carroça ou trator e caminhão da Prefeitura, Exercito ou um rico fazendeiro o povo andava a pé ). Na escola a maioria brasileira levava de marmitex frio de arroz, feijão ovo, bife ou batata,,mandioca, abobora (assada) pão frances , com margarina, bife, peixe,queijo como criança gosta de novidade fazia as trocas e pela primeira vez comia as comidas brasileiras cheias de objetos estranhos e ficava com diarreia, cólica e doenças que até hoje sigo o jeito japones por ter vivido de 1991 a 2008 no japão que é o Café da manhã sem café com água ou chá e arroz com conservas no lugar de torada com café e margarina.,sal, mel, salame……

    • Fernando Goldenstein Carvalhaes 23/03/2018 Responder

      Que legal seu depoimento!
      Você tem receitas antigas de tsukemonos e outras conservas japoneses para divulgar?
      Abraços,
      Fernando

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