Resenha do livro “Sangue, ossos e manteiga” de Gabrielle Hamilton
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Sempre gostei muito de ler. Agora que me aproximo dos 40 anos, idade ardilosa que sempre me alertaram como sendo própria para crises existênciais e para repensar a vida, tenho lido diversas biografias. Prefiro as autobiografias, porque como se diz comumente, não existem os fatos, apenas as versões… escolho então explorar as versões de quem viveu os fatos, mesmo sabendo que podem ser romanceadas. Realmente, autobiografias bem escritas nos ajudam a refletir sobre nossas próprias vidas.

Me emocionou a autobiografia da Rita Lee. Sou seu fã incondicional, desde que tinha altura para puxar a cadeira e alcançar a vitrola e destreza para colocar a agulha na faixa “lança perfume” sem riscar o LP. Devorei o livro em dois dias, me segurando para não ler “na diagonal”, saboreando cada palavra, frase, parágrafo, história, curiosidade, fantasia, fofoca, rancor, alegria, desastre, comédia e tragédia da história da agora vovó do rock nacional. Difícil mesmo foi não desabar no choro ao terminar este porre homérico que é a epopéia da vida da estrela. O que mais me encantou, refletindo agora que consegui me distanciar da intimidade que o livro propicia, foi a simplicidade, a ausência de pompa, a desmistificação da grande estrela.

 

 

 

 

Sim, ela é A estrela, mas também é uma pessoa, afinal das contas. Grande parte do livro versa sobre falta de grana, depressão, ressacas, dificuldades técnicas e desencontros amorosos. Problemas que todos nós enfrentamos diariamente.

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Nessa mesma linha de autobiografias, em um ambiente completamente diferente, também emociona cada página o livro “Sangue, Ossos e Manteiga” da Chef Gabrielle Hamilton. Segue a mesma simplicidade, sinceridade e desmistificação desta profissão tão mitificada hoje em dia, numa glamourização que lembra o mundo do rock.

O livro presta um exercício de cidadania, porque coloca os pingos nos is da alta gastronomia e quebra diversos preconceitos e vícios que surgiram há muito tempo e como que se fossilizaram em paradigmas na atualidade.

Gabrielle é uma anti-heroína do começo ao fim do livro. Uma criança desajustada, caçula de uma mãe francesa cozinheira de mão cheia e personalidade forte, com um pai americano molenga, cenógrafo errante e boêmio convicto. O casal dessemelhante se separa no início de sua infância de forma abrupta: a mãe desaparece e o pai usa toda sua energia emocional para lidar com este abandono conjugal, restando muito pouco tempo para ela. Começa aí uma série de desventuras desastradas, nada edificantes, uma mistura de Cristiane F. com Bonnie (do Clyde), uma Macunaíma errante. Ela narra de forma vívida suas intemperanças, que incluem roubos de carros, uso de drogas, roubo de gorjetas que quase a levam para prisão – ela é salva por ter mentido a idade para ser contratada no bar onde trabalhava, o que os leva a uma enorme multa e ao abafamento do caso

Tendo que se virar para não passar fome, começa a cozinhar em buffets. É um dos pontos em que o livro brilha, pois desmistifica a profissão de “chef-estrela”, hoje glamourizada de forma nociva, ao meu ver. Digo isto por que vejo tanta gente querendo ser “chef”, sem fazer a mínima ideia do dia-a-dia de um cozinheiro, sem nunca ter feito 3 turnos, cortado um saco de cebolas até sentir o ácido sulfúrico corroer os glóbulos oculares e evitando cortar alho por causa do “cheiro que fica na mão”.

Este livro é um bom exercício para quem está na dúvida sobre qual caminho tomar na vida e olha para a cozinha com tentação. É um choque de realidade necessário para todo mundo que quer trilhar este percurso tão saboroso, mas muito duro de se roer.

Outro ponto forte do livro é como ela ataca com desenvoltura o debate exaustivo e eternamente polarizador sobre a situação das mulheres na sociedade, especialmente nesse setor. É angustiante perceber que existem dois mundos aparentemente distintos da cozinha. O primeiro, que remete às sociedades matriarcais (caso do Brasil por exemplo), onde as mulheres (mães, avós, cozinheiras) estão sempre presentes na cozinha preparando nossas refeições do dia-a-dia. Este é um papel geralmente relegado às mulheres, o da culinária – ou culinária afetiva, como se pretende distinguir hoje em dia. Outro é o mundo dominado pelos homens, o mundo dos chefs, da “alta gastronomia”. É claro que existem diversas exceções, há grandes chefs mulheres, mas, se você procurar na mídia, na literatura e nos restaurantes em geral, este papel ainda é dominado pelo gênero masculino.

E este padrão está entranhado em nossa sociedade. Por exemplo, outro dia fui dar uma aula sobre molhos de pimentas na cozinha central de um grande restaurante paulistano e a nutricionista, que foi acompanhar a aula, me puxou de canto logo no início para perguntar como eu iria lidar com o fato de que havia uma cozinheira no grupo, e molhos de pimenta estão na lista de comidas que as mulheres não podem cozinhar, junto com sushis e confeitaria, segundo o mito misógino de que mulheres têm mãos quentes.

Eu fiquei indignado e tentei esconder meu desapontamento com a profissional que está exercendo uma profissão tão séria, e que, no entanto, guarda um tipo de preconceito antigo, oriundo de sua história de vida e educação. Detalhe: o restaurante é um dos poucos em São Paulo famoso por ter uma chef no comando.

Chefs proprietários de restaurantes costumam dormir pouco, acordar cedo, escrever cardápios, preencher cheques, fazer listas de preparação, destrancar os portões do estabelecimento, cozinhar, atender clientes e imprensa, fazer compras, trancar os portões no fim do dia e ir dormir tarde depois de uma longa e exaustiva jornada -isto além de todas questões de sua vida pessoal; relacionamentos amorosos e filhos para cuidar, caso da autora dessa autobiografia e de tantas outras e outros.

Qual deveria ser a diferença entre ser um chef ou ser uma chef? Ambos cozinham, certo? Já está na hora de reconhecermos esta igualdade – e desfrutarmos as diferenças.

O livro de Gabrielle Hamilton, assim como o de Rita Lee, uma na cozinha e outra no rock, é libertador.

 

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